Introdução

6ª Edição 2015

Comparar as regras do Anglo-American Cataloguing Rules, 2nd edition – AACR2 que permanecem com as que surgem sob os novos conceitos pelo Resource Description & Access – RDA – ou mesmo somente tomar conhecimento dessas mudanças – ultimamente é o assunto que ocupa não só o espaço falado como o escrito dos professores de catalogação, dos catalogadores e até dos estudantes de biblioteconomia, que se veem diante de um impasse, sem saber se vale a pena aprender as regras do AACR2, já que tão brevemente, “como anunciado”, deve ser substituído.

Esta introdução tem como objetivo lembrar um pouco da história do aparecimento do AACR2 e considerar a sua prática não ultrapassada. O AACR2 caminha para dar lugar ao RDA em bibliotecas dos Estados Unidos, lideradas pela Library of Congress e de alguns outros países, onde já se encontra saindo da fase de testes para a prática. Essa história não foi constituída de detalhes, pois para isso temos um precioso capítulo do livro Catalogação no plural (Mey & Silveira, 2009), e outros livros mais antigos, como os Novos rumos da catalogação (Barbosa, 1978), dos quais foram pincelados alguns fatos e documentos que consolidaram diretamente as regras de catalogação do AACR2.

O AACR2 teve suas origens com o Cataloging rules: author and title entries, da American Library Association – ALA (1908). Identificado como Código da ALA teve uma 2ª edição preliminar (1941), e a definitiva (1949). Objeto de críticas e estudos por algum tempo, após a Conferência de Paris (1961), essa edição surge como 1ª edição do Anglo-American Cataloguing Rules – AACR (1967).

Essa edição, dividida em três partes, teve a sua Parte I – Entrada e cabeçalho – reformulada segundo os Princípios de Paris (1961). Na Parte II – Descrição –, adotou-se o padrão internacional de descrição bibliográfica, International Standard Bibligraphic Description – ISBD, criado e aprovado pela Reunião Internacional de Especialistas em Catalogação – RIEC (1969), realizada em Copenhague. Surgiu, assim, a 2ª edição AACR (1978), publicada pelos mesmos editores da edição anterior: American Library Association, Library Association, Canadian Library Association e Library of Congress.


Até mesmo os que usavam as regras da 1ª edição e vinham acompanhando a sua evolução se viram diante das novidades trazidas pela 2ª edição, que passou a ser identificada como AACR2, destacando-se da edição anterior. A nova edição veio apresentada em folhas soltas de atualização, exemplo de “recurso integrado”, também criado por essa edição, já dividido em duas partes e contrariando a sua ordem original, como a dos códigos anteriores. Dessa forma, fez-se a transposição dessas partes: Parte I – Descrição –, seguida da Parte II – Pontos de acesso –, ordem incomum até aquela época. Essa ordem, não alterava, nem altera o processo de catalogação, mas já refletia a visão nova dada a esse processo, de acordo com a lógica da catalogação: primeiro se descreve e dessa descrição, se estabelecem os pontos de acesso.

Esse código foi traduzido em 25 línguas e adotado por vários países, inclusive pelo Brasil. Em constante processo de revisão, exigido pela sua condição de internacional, atingiu as mudanças previstas, que não justificaram novas edições, permanecendo a 2ª edição, reeditada como revisões em 1988, 1998 e 2002, esta última em vigor.

Novos tipos de recursos e a evolução dos métodos de comunicação, entre outras mudanças, evidenciaram que um simples processo de revisão não mais seria indicado. A partir de 2004, o Joint Stering Committee for Revision of AACR avançou o seu trabalho rumo à 3ª edição, ao AACR3. O passo foi grande, e as mudanças substanciais não justificavam nem mesmo uma nova edição, mas a criação de algo novo, o que viria a ser o seu sucessor – o Resource Description & Access – RDA.

Como a Conferência de Paris (1961) e a Reunião Internacional de Especialistas em Catalogação (1969) foram marcos na história da catalogação e dos seus códigos, o Seminário sobre Registros Bibliográficos (1990), realizado em Estocolmo, surge como revolução para o que até então havia sido criado, quando se formou um grupo de estudos para definir os requisitos funcionais para os registros bibliográficos. O relatório final apresentado por esse grupo, na 63ª Conferência Geral da IFLA, foi aprovado e, em seguida, publicado sob o título Functional Requirements for Bibliogrphic Records – FRBR (1998).

Os FRBR, um modelo conceitual do tipo entidade-relacionamento, estabelecem: – as entidades dos registros bibliográficos – os atributos de cada uma das entidades – as relações entre as entidades, sendo as entidades o aspecto mais importante do modelo. Portanto, não se trata de um código de catalogação, ou um formato como o MARC, não descrevem a forma de apresentação dos elementos descritivos, como a ISBD, nem invalidam a sua utilização, mas vem influenciando a reformulação de todas essas práticas.

É aqui que o AACR2 encontra o seu impasse: Resource Description & Access – RDA, que vem para substituí-lo, o novo código de catalogação, segundo as entidades FRBR.

O QUE ACONTECEU E ESTÁ ACONTECENDO COM O AACR2 EM RAZÃO DO SURGIMENTO DO RDA?

A resposta está resumida nas palavras de Chris Oliver, participante ativa do processo de desenvolvimento do RDA, no seu livro, Introduction RDA: a guide to the basics, tradução de Antonio Agenor Briquet de Lemos (2011):

“... Podemos pensar na RDA como produto de uma total desconstrução das AACR2 e sua reconstrução como uma nova norma centrada na estrutura dos modelos conceituais FRBR e FRAD. Na desconstrução coletiva da Parte I das AACR2 as regras foram retiradas de seus capítulos. Foram removidas da estrutura de ‘tipo de material’ que definia a Parte I das AACR2. Eliminaram-se algumas regras ou instruções, alteraram-se outras, algumas foram generalizadas e se acrescentaram novas. Inúmeras regras das AACR2 foram reescritas para ajustá-las à terminologia da RDA e postas em novo lugar na estrutura da RDA, porém, na essência, continuam as mesmas. A RDA utiliza muitos dos elementos construtivos antigos e os reorganiza numa estrutura nova baseada no arcabouço teórico expresso nos modelos conceituais FRBR e FRAD. Assim, há ligações reconhecíveis com as AACR2, bem como há instruções RDA que não passam de regras AACR retrabalhadas, embora a orientação da norma como um todo haja sido alterada. Ao se harmonizar com os modelos conceituais FRBR e FRAD, a RDA foi construída em torno de uma estrutura teórica nova, explícita e logicamente bem-fundamentada”.

Há diferenças grandes nas suas estruturas e, consequentemente, difereças de linguagem entre o RDA e o AACR2, mas não têm como não caminharem juntos.

O QUE ACONTECEU COM A 6ª EDIÇÃO DESTE MANUAL, REVISTA, ATUALIZADA E AMPLIADA?

A estrutura, o conteúdo e o texto das regras permanecem os mesmos da edição anterior. Apenas alguns exemplos foram acrescentados, outros poucos, revistos e alterados em decorrência de estudo, pesquisa, enfim, de experiência adquirida nesses anos do seu ensino. Todos esses exemplos constam da parte impressa do Manual em formato MARC, e os dois formatos de catalogação tradicional e em MARC continuam no CD-ROM. Por esta razão e em resposta às perguntas daqueles que precisam da tradicional ficha catalográfica, foi criado o Apêndice B. O documento sobre o MARC Campo 490, que já consta de edições anteriores, foi transformado em Apêndice A.

As datas (nascimento, morte, etc.), dados importantes e até indispensáveis na construção dos catálogos de autoridade, deixam de ser opcionais – isto também previsto pelo AACR2 – e passam a integrar os cabeçalhos dos autores, não na sua totalidade, às vezes por falta de fontes para a sua pesquisa.

Os campos e subcampos do MARC são inúmeros e novos continuam sendo criados, mas somente usados neste Manual quando requeridos pelos exemplos. O campo 246 (forma variante do título) prevê o uso de vários subcampos, entre eles o subcampo $h (meio físico), como a [DGM] junto ao título principal ou à última parte do título principal. Esta prática, julgada excesso de informações para um mesmo registro, teve pouca aceitação por parte dos usuários do sistema. Atualmente, esta posição se reforça com a chegada e implantação gradativa do RDA, que até o consolidado registro da [DGM] campo 245, subcampo $h foi eliminado, ou melhor, substituído por campos criados especialmente com esta finalidade.


A Autora.

 
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